Crônica de uma celebração folclórica

Posted by Jean Marconi on set 16, 2009 in Crônicas | 0 comments

Não sei o que é essa coisa que me atrai, que me impele a buscar, seguir, celebrar o folclore.

E essa mesma força estranha – desta vez vinda através de um convite – que me levou a prestigiar e testemunhar a I semana do folclore do Memorial Serra da Mesa, em Uruaçu-GO. E eu queria, eu precisava estar lá.

Cheguei ao pórtico por volta de 8h da manhã de sábado… Não vi ninguém… Será que é aqui mesmo? Observando mais atentamente, vejo o rastro deixado pela festa da noite anterior. É, é aqui mesmo.

Minutos depois, surgem os índios, que como todo bom índio, só aparecem quando sentem que está tudo bem. Fico ali, observando, até que chega alguém para abrir o portão.

Sou recebido com um delicioso café-com-leite e pão de queijo, entregues por d. Eliana, uma amabilíssima senhora de conversa agradável e permanente sorriso no rosto.

Passa um tempo e, com certo receio, me convidam a por a mão na massa… Mas gente, não se preocupem, foi para isso que vim!

Aos poucos vão chegando os convidados principais: gente simples e humilde, que tem cultura e tradição enraizadas no coração. São quilombolascapoeiristas, foliões, índios; são vaqueiros pra tocar os bois na moenda, e fiandeiras, e cozinheiras pra coar o café na hora…

Sinva não pára. Não consigo acompanhar seu pique, sério! Sobe e desce aquele morro como se estivesse numa escada rolante.
Pedro, com suas piadas e poesias, é a essência da pureza caipira. É o Mazaroppi redivivo. E ainda tem o Tau. Ele é o irmão do Irmão Sol, ele é o Sócrates de Dan Millman.

O Memorial é uma viagem sensorial no tempo. O museu do cerrado é espetacular. Ao chegar na vila cenográfica e na fazenda, então, foi como voltar à infância, nas minhas idas para o interior de Goiás e pra fazenda de meu avô.

À noite, depois das cantorias das Folias e de dançar muitochimite, me rendo ao cansaço e paro para assistir ao documentário dos Avá-Canoeiros. Sou apanhado pela Teia do Povo Invisível; eles estavam ali, do meu lado, Iauí, Trumack… As lágrimas vêm aos olhos e queimam a garganta. Minha vontade era de ir lá pedir perdão, perdão pelo meu irmão, o homem civilizado, ter massacrado seu povo. Naquela noite, custo a dormir.

No dia seguinte, o batente recomeça: café, arrumação, convidados, calor, subida, descida, alegria, dança, cantoria. Após o almoço, começo a me despedir dos novos amigos: Carlinhos, Edivaldo, Zilpa, Abadia, e outros que – me perdoem – não lembro o nome, mas não esqueço o rosto. Na volta, pego uma carona com os Cariri-Xocó. Já começa a bater aquela saudade, aquela que como um barco, descreve um arco, sem atracar no cais. O cais tá lá, atrás do Memorial, na Lagoa Serra da Mesa. O barco veio pra Brasília, que mesmo tendo mar, pede pra voltar pr’aquele lago imponente.



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