CAXÁPedro Claudino dos Santos, conhecido por Caxá, é o maior contador de causos da região, todos os acontecimentos lhe servem de inspiração para criar um “causo”. Este relato sobre ele é uma homenagem à sua força, seu caráter, sua insistência em ser natural resistindo ao progresso…

Caxá – Insistindo contra o progresso

A televisão mostra imagens novas, seu Caxá não se importa, o seu rádio de pilhas tem todas as notícias, pode sabê-las de olhos fechados.
Mantém a tradição rigorosa em tudo, comida, bebida e até na hora da consulta diz para o médico:
- Quantos anos você tem? Imagine, não pode saber mais que eu que já vivi 87…
E assim ele continua tomando seu ?veneno?, mistura de raízes curtidas no vinho ou na pinga. Se a saúde piora toma logo uma injeção de óleo de pau ou banha de sucuri, ele mesmo a injeta.
A sandália nos pés é de um modelo único, foi ele que fez, se perguntam diz:
- É do Paraguai.
É uma planilha de pneu com tiras de couro, tão bem feita que já dura 47 anos acompanhando os passos arrastados do grande homem que nunca será velho…
Não se conforma com os homens que ficam em casa cuidando de tudo enquanto as mulheres vão ?trabalhar? na Espanha, diz que tem vergonha de ver isso.
Dentre suas proezas aconteceu essa que marcou muito: Seu Caxá mesmo com a idade tem muito vigor físico para contar causos, fazer piadas, faz com que tudo se torne engraçado, até a morte, mesmo que seja sem querer, como no episódio a seguir.
Sempre prevenido, já deixou o túmulo pronto, com fotografia e tudo, no cemitério Santana, na cidade de Uruaçu onde reside há uns 60 anos. Construiu o túmulo dizendo que é para não dar trabalho quando morrer. E assim faz suas visitas corriqueiras ao cemitério e à sua tumba também.
Certo dia foi conferir se estava tudo certo e distraído arrancava um matinho ali, outro acolá, e não percebeu alguém que o olhava de longe.
O curioso que observava foi chegando mais perto olhando a foto, fazia comparações, parecia muito; devia ser um irmão gêmeo que estava sepultado ali, deduziu.
Não suportando a curiosidade chegou bem perto e disse:
- Bom dia, senhor.
- Olá bom dia – respondeu sorridente seu Caxá, apertando a mão do desconhecido.
Travaram conversa, falaram sobre os cuidados com as sepulturas no cemitério, quando o curioso lembrou de perguntar:
- Este da foto aí, é seu irmão?
Seu Caxá, todo sorridente responde:
- Não, sou eu mesmo…
O homem saiu correndo, não olhava para trás e desapareceu antes que o seu Caxá pudesse explicar qualquer coisa…
Seu Caxá é o maior contador de causos da região, seja de política, religião, velhice, mocidade, para cada episódio ele cria um causo especial.
Escolhi ?Ritmo de Vida? que ele compôs, o qual transcrevo respeitando seu modo original de escrever:

Ritimo de vida

Eu mialembro, tenho saudadi
do ritimo que fui criado,
naquele tempo
um jovi com trinta anos não coecia pecado
andava de camizola com os pai acompanhado
vistia longo porque para joeli fica tampado
existia obediência, os pais era emprazerado

os ano forao paçando oje o disco ta virado
eu sotenho dó dos pais que são omilhado, tavendo as filias ando quase nua e os filios cuase pelado.
tudo xei de tatuage, brinco, andano entuziasmado, faz tudo que tem vontadi, o pai fica calado

é um ditado antigo ta sendo realizado
que ainda xegava um tempo de todos pais ser omiliado
até la eles quem manda nos pais vão ser dominado
com ordi do promotor do juízo e delegado
vai cabar os querer bem i o amor aos pobris velios coitados.
Dizoito ano abaxo para eles é tudo liberado
com isto noço mundo ta compreto de jenti clacificada, marginal, maconheiro, maloqueiro, traficanti diplomado
São os aluno do Fernandim beira mar i os Ozana Bilar
ta no mundo esparramado..

E assim ele vai escrevendo seus causos, nunca foi à escola, porém aprendeu a ler e escrever registrando suas histórias com palavras que gritam contra o consumismo, o progresso desenfreado, onde segundo ele, os valores se perdem.
Seu Caxá pertence a uma geração de homens sérios, que sabiam falar e calar na hora certa, se respeitavam, como ele mesmo diz:
- Hoje os homens não têm mais vergonha, apanham na cara e no outro dia estão na rua sorrindo.
E lutando para manter o jeito original de viver, ele continua; os passos lentos lutam contra o tempo, quer viver, mas insistindo contra o progresso.

Parabéns, meu amigo Caxá!



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